O preço que a verdade cobra

O preço que a verdade cobra

Há dois motivos para não sermos compreendidos: o primeiro, quando falhamos, por ignorância ou imperícia linguística, na transmissão de nossas idéias; o segundo motivo se dá quando o nosso interlocutor é incapaz de apreender o sentido do que estamos lhe dizendo. Ambos os motivos têm consequências, mas o primeiro gera, no máximo, a impaciência no ouvinte, enquanto o segundo pode provocar nele pavor.

Sócrates explica isso em sua Alegoria da Caverna, ao contar sobre a pessoa que, após deparar-se, pela primeira vez, com a luz, tomada de compaixão pelos antigos companheiros que permaneciam nas sombras, retorna até a cova escura, onde eles estão, para contar-lhes a novidade. No entanto, nesse trajeto de retorno, já não mais adaptada à escuridão, impossibilitada de enxergar qualquer coisa com distinção, age de maneira desajeitada e esquisita, provocando, nos moradores da caverna, estranheza e medo.

Na vida real ocorre o mesmo. Quem se depara com a verdade não consegue mais fazer uso das categorias e fórmulas usadas em seus tempos de ignorância. Assim, quando tenta se comunicar com os ignorantes, aos olhos destes acaba parecendo um tolo. Os ignorantes, então, concluem que a verdade proclamada é um veneno e, por mais que a não entendam, têm-na por perigosa, achando por certo afastar de seu convívio seu portador.

Diversos alunos e leitores meus relatam algo semelhante: que, ao contar para seus amigos e familiares, sobre a verdade que encontraram, são tratados como excêntricos, loucos e até perigosos. No entanto, o principal motivo não costuma ser a discordância do ouvinte, mas o medo provocado nele por algo tão fora do seu universo de consciência.

Este é o preço que a verdade cobra de quem se encontra com ela. Para este, resta esforçar-se por traduzir, em uma linguagem compreensível aos ignorantes, a nova realidade ou, simplesmente, conformar-se com a reprovação social. Se bem que o exemplo de Cristo, que fez bem aquilo, mostra que esta parece inescapável.

Revelação da verdade

Revelação da verdade

Existe verdade e mentira. Isto é fato. Não significa, porém, que verdade e mentira sejam realidades estáticas, simples, absolutas.

Quando Platão nos apresenta a alegoria da caverna, ele mostra como a verdade, simbolizada pela luz, não pode ser contemplada de uma vez, imediatamente. Ela não é achada após um salto. Não se sai da escuridão, de uma hora para outra, para a luz.

Aliás, esse é o motivo de tantas pessoas, nessa empreitada na busca do conhecimento, atrapalharem-se. Ao se depararem com um feixe de luz, empolgam-se, acreditando

que já estão vendo a luz em sua inteireza, e confundem-se. É muito comum testemunhar recém-saídos da ignorância absoluta acreditarem que se tornaram, de repente, os possuidores do conhecimento, arrotando arrogância por causa disso.

Obviamente, estão equivocados. A verdade não pode ser abarcada, em sua completude, de supetão. O encontro com a verdade plena é um processo gradativo, uma conquista paulatina até o encontro frontal com a realidade em sua plenitude.

O fato é que a luz de verdade não pode ser encarada sem, antes, uma adaptação. Não por acaso, Tomás de Aquino dizia que a verdade é antecedida por muitos véus. Para o homem encontrá-la por inteiro, portanto, precisa atravessar esses véus.

Isso não significa que os primeiros contatos com a luz da verdade sejam algum tipo de ilusão. Eles já contêm a verdade, mas uma verdade atenuada, aguardando que nos acostumemos com ela para, aos poucos, ir se revelando cada vez um pouco mais.

Portanto, verdade não combina com pressa. Os apressados tropeçam no meio do caminho e, com a cara no chão, acabam perdendo contato com a luz da verdade.

Aceite a revelação paulatina de verdade. Não tente desnudá-la violentamente — ela não releva esse tipo de investida. Pelo contrário, deixe que ela lhe seduza, que lhe conquiste, que, por vontade própria, se dispa diante de você, no tempo dela, do jeito dela.

A verdade é senhora de si e dona de tudo. Portanto, se você quer contemplá-la, peça para ela que, no momento que a ela aprouver, lhe responderá.

Prisioneiros da caverna

Prisioneiros da caverna

Entre o que vemos e a realidade, em todos seus matizes e profundidade, há uma distância maior do que o senso comum costuma imaginar. A maioria das pessoas sequer se dá conta de que as coisas se dão da maneira como se dão. São como os prisioneiros da caverna de Platão.

Nessa alegoria, Sócrates sugere que Glauco imagine uma caverna, onde há homens acorrentados desde a infância, com grilhões nos pescoços e nas pernas, impossibilitados, por isso, de se mover para os lados e para trás, capazes apenas de olhar para a parede do fundo dessa caverna, onde vêem as sombras dos homens e objetos que se movimentam do lado de fora, acreditando consequentemente que as vozes que escutam pertencem a essas sombras.

E não é assim com a maioria das pessoas? Olham as coisas sem ter noção de que são apenas reflexos da verdade. Vêem somente a ponta mais visível da realidade e acreditam que se trata da realidade mesma. Deparam-se com algo, aprendem algo e logo concluem que não existe nada além daquilo.

O mundo está tomado de convicções, fé e certezas baseadas em aparências. Mesmo gente com poder se encontra nessa situação. Imagine então quanto das decisões que afetam a vida de quase todo mundo estão fundamentadas nessa visão parcial e pequena da realidade.

E pense o quanto, para aqueles que entendem a verdade em seus graus mais profundos, e que possuem más intenções, é fácil enganar os pobres coitados que só conseguem enxergar, quando muito, aquilo que está diante dos seus olhos.

Entenda que a realidade tem muitos graus de verdade. O que se sabe pode ser verdadeiro, mas dificilmente é imediatamente abarcado em sua totalidade. Por isso, é preciso aprender a olhar para além do visível. Lembrar-se que o que vemos costuma ser um mero sinal de uma verdade mais profunda e mais complexa, que só pode ser alcançada em um processo de conhecimento gradativo e paciente.

Lembre-se sempre que aquilo que você vê não é toda a verdade sobre aquilo que você vê. Dê tempo ao tempo e esforce-se por buscar compreender as nuances e profundidade daquilo que é captado por sua percepção mais imediata.

Sempre que se deparar com algo, pare e se pergunte: o que há além? O que existe a mais do que isso que estou vendo? Quais são as características que ainda não consigo enxergar?

Apenas fazendo isso é possível começar a dar os primeiros passos para fora da caverna e deixar de ser um prisioneiro.

A busca pela verdade

A busca pela verdade

A busca pela verdade é uma vocação. Isso fica evidente quando vemos que algumas pessoas, simplesmente, não se incomodam em passar os seus dias sem compreender nada, enquanto outras – as realmente vocacionadas – são despertadas para deixar a ilusão das sombras da ignorância em direção à luz do conhecimento.

Os obstáculos, porém, que se apresentam para aqueles que se dispõem a isso são muitos. A preguiça, o medo do que se pode encontrar pela frente, a insegurança em relação às próprias capacidades e mesmo a natureza humana, com seus impulsos e instintos, são os inimigos internos que trabalham no sentido de afastar a pessoa da busca pelo conhecimento. Há ainda os obstáculos exteriores que se apresentam para desviar a pessoa de seu trajeto em direção à verdade, como as necessidades materiais mais urgentes, o sustento da família, a falta de tempo e, ainda, a incompreensão de amigos e familiares, que não entendem essa dedicação a algo impalpável.

Não por acaso, muitos concluem que a ignorância acaba sendo até uma bênção e é muito comum algumas pessoas desistirem no meio do caminho, achando que o esforço que se exige nessa empreitada é muito grande. Nisso, talentos acabam desperdiçados e vidas que possuíam a potência da inteligência, ao invés de florescerem, murcham na mediocridade de uma vida sem entendimento.

O fato é que, para que a existência se abra, revelando alguns de seus segredos, exige-se um comprometimento firme com ela, o que reclama a disposição por lançar-se nas fontes de conhecimento com todas as forças, estando ciente que será preciso abrir mão de tudo aquilo que pode desviar a pessoa desse caminho. Por causa disso, é inescapável entregar-se por inteiro. Afinal, como dizia Sertillanges, a verdade só está a serviço de seus escravos.

No entanto, para o impulso em direção à luz da verdade, é preciso que haja um incômodo com uma existência mergulhada na estultice e o temor de viver uma vida sem nenhum sentido. E isso nem é suficiente, muitas vezes. É preciso algo mais. Algo como um espanto, como dizia Aristóteles, capaz de despertar a pessoa de sua letargia interior.

Esse espanto, porém, não virá apenas da perseguição dos bons resultados; nem da necessidade de fama e reconhecimento; nem mesmo da vontade de poder. O único motivador infalível acaba sendo aquele momento da vida quando a pessoa se depara com a necessidade de tornar-se alguém melhor, de crescer, de amadurecer. Somente quando ela percebe que sua evolução pessoal é vital para si e para os outros que a compreensão da realidade transforma-se, para ela, em algo indispensável.